sábado, agosto 12, 2006

este blog se mudou para

http://naminhacanja.blogspot.com

quarta-feira, julho 26, 2006



Se eu morresse agora
quem botaria as minhas botas,
os meus sapatos não usados.
Elena calça quarenta,
e mamãe apenas especiais sob medida.
Isso me angustia.
Pensá-los vazios frouxos no armário,
novos.

***

Se morissi adesso
chi porterebbe i miei stivali,
le mie scarpe non smesse.
Elena porta il quaranta,
e mamma certe speciali su misura.
Questo mi angoscia.
Pensarli vuoti afflosciati nell'armadio,
nuovi.

(Annelisa Alleva, trad. Marcos Visnadi)





21 de fevereiro

Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular. Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo. Abomino Baudelaire, querido, mas procuro na vitrina um modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis, reais. Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo belo. Tenho tudo que fere. As alemãs marchando que nem homem. As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar. Não me deixa agora, fera.

(Ana Cristina Cesar)

terça-feira, julho 11, 2006

Victor Jarra morreu de forma horrível: cortaram-lhe as mãos no centro de um estádio lotado, deram-lhe um violão e ordenaram: "agora toca!"





e, se eu quiser escrever, colocar isso em ficção, em texto, em papel - arrancar ao peito, à mente, à imaginação, e ordenar verbalmente - se eu quiser, não posso fazer um texto que seja menos dolorido e absurdo que o fato foi. Porque senão, qual o motivo? Transformo o horror em tinta ou pixels - achato - corro até o risco de fazer um texto chato - ou de tê-lo lido por alguém que dirá "coitadinho do victor jarra..."

pra escrever certas coisas é preciso critério e cautela. Chklóvski ("A arte como procedimento") diz que a arte serve para desautomatizar, para singularizar. Pra que escrever mais um texto? Para banalizar, dessingularizar, transformar a tortura e a morte e a vida em carne-de-vaca? Mas não precisa transformar: já são.



O legal é o sangue escorrendo, o homem chorando, os soldados de pau duro e a multidão urrando.

sábado, julho 08, 2006

Um ódio alimentado até a amnésia

(do prefácio de Tahar Ben Jelloun a O Pão Nu, de Mohamed Choukri)

domingo, junho 25, 2006

(ISSO NÃO É POESIA)


"Meu querido povo estou aqui pedindo um pequeno auxílio se puder ou não puder não me julgue porque sou deficiente visual são vocêis que me ajudam a criar os meus filhos não tenho ninguém por mim que Deus nunca deixe falta a luz dos olhos de cada um de vocêis Deus dara o dobro cada vez mais aceito passe Obrigado"


(mulher com dois filhos pequenos, papel entregue no trem metropolitano de São Paulo)


Kurt Schwitters, Das Unbild



(

no mundocão
não tem pontu
ação

)

sexta-feira, junho 16, 2006

("luzindo na minha vida vazia")

Dois poemas de Orides Fontela
(grosso modo por causa dela)





A ESTRELA DA TARDE

A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima

Depois da estrela da tarde
só há:
o silêncio






KANT (RELIDO)

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.

quarta-feira, maio 24, 2006

"No momento em que eu ou qualquer outro escritor resolve dizer-se, verbalizar o que pensa e sente, expressar-se diante do outro, para o outro, o leitor que pretende ler o que eu escrevo, então o escrever sofre uma transformação essencial. Uma transformação ética que leva ao político: a linguagem, a sintaxe passam a ser intrinsecamente atos políticos de não-pactuação com o que nos circunda e que tenta nos enredar com seu embuste, a sua mentira ardilosamente sedutora e bem armada"

(Hilda Hilst, depoimento ao Jornal da Tarde, citada por M.A. Yonamine em O Arabesco das Pulsões: as configurações da sexualidade em A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst - tese de mestrado FFLCH/USP, 1991)


Kurt Schwitters. 'Blauer Vogel' (1922)



a linguagem desvelando/recodificando o real: a política do símbolo, ética da escrita.

a poesia não é feita com palavras [retomando o post abaixo] mas com linguagem verbivocovisual - que é uma coisa maior.

(desdobramentos?)