domingo, dezembro 26, 2004

Sobre a possibilidade de diferentes modos de expressão

post para o blog antigo

Depressão pós-natalina, pré-reveióm, ano-novo-vida-nova: mais cachaça, menos desgraça, com a bênção de Deus. Reoluções a la Bridget Jones: vou cantar menos "you should be my luckystar" e partir pro abraço; terei um corpo como o do Rodrigo Santoro; serei mais culto e mais blasê; imparerò l'italiano; cortarei os pulsos só pra fazer graça; não volto pra Jundiaí nunca mais. Cansei seriamente de depender das pessoas. É agora, coração: assumir a solidão e torcer o rabo: all my love to live, all my life to give, nessa contramão.


post para o blog atual

Em O mal-estar na civilização, Freud aponta três fontes do sofrimento humano:

a) a natureza (tufões, maremotos, 11 mil mortos na Ásia)
b) a debilidade física (velhice, doenças)
c) as relações interpessoais

Dado que os dois primeiros tópicos independem da nossa capacidade de intervenção, depositamos nossas expectativas de felicidade no terceiro. Frustramo-nos, pois não? Mais fácil que lidar com pessoas é lidar com furacão.


análise comparativa

Repare como o primeiro texto carrega no tom pessoal através de uma impessoalidade claramente forjada. Repare também nas citações pop e literárias que, presentes no primeiro post, desaparecem do segundo. Neste há somente uma citação ao texto teórico freudiano. O amadurecimento do Autor se faz claro tb na medida em que o esforço por dar ao texto um tratamento estético mais aguçado é bem mais sutil no texto escrito para o atual blog.

Há também uma evolução no modo de expressar a emotividade: muito mais rasgada e aparente no primeiro, ela quase que desaparece do segundo (se se fizer uma leitura atenta, porém, ver-se-á que ela continua tão ou mais desesperada). O assunto tratado é o mesmo: a precariedade das relações interpessoais e a frustração do sujeito poético diante do seu fracasso no lidar com o alheio. No entanto, se no primeiro essa frustração pede por reparação e se agarra à esperança de um porvir diverso (assegurado pela aurora do novo ano), no segundo basta a constatação do desastre. Isso se deve à proposta de cada blog: o primeiro, de bradar remoimentos internos; o segundo, de teorizar atitudes.

(Para saber mais sobre auto-análise literária e suas implicações para o ego, leia o conto O Aleph, de Jorge Luis Borges)

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