quarta-feira, novembro 23, 2005

Preparação para a morte

O semimorto não precisa de calçados ou camisas, que poderão ser passados aos filhos e outros mais chegados sem prejuízo algum. A morte não leva panos ou cadarços; a morte não leva jóias; a morte não leva óculos, prestobarba, livro de cabeceira nem retratos. O que a morte leva são apenas os bens perecíveis, essas coisas descartáveis com as quais lidamos diariamente.

Preparação para a morte

Convém atender aos telefonemas, que é trabalho da futura viúva ou do responsável direto pelo moribundo. Os parentes mais distantes, os amigos mais sumidos, os rivais do tempo de escola, todos quererão saber sobre a proximidade da morte. A morte é, antes de qualquer outra coisa, reunião (e não me leiam numa chave religiosa). É como esperar o último capítulo da novela: todos sabem que vai haver casamento, vilões punidos, heróis recompensados. Ainda assim o Ibope mede 40, 50, 60 pontos.

Preparação para a morte

Não adianta mais se preocupar. Não há mais tempo! Não adianta pensar, conjecturar, lamentar a noite derramada. Não adianta mais, não serve de nada. Não tem mais tempo. A morte é a real e última impossibilidade de voltar atrás. É também o supremo arrependimento: de não tê-lo olhado melhor, apertado sua mão quando ela ainda podia responder, guardado um souvenir, um cheiro que fosse. E o cheiro vai deixando lentamente - mas muito rápido - os panos, os estofados, o chão, os corpos, a memória, e quando você se dá conta já não lembra mais se algum dia sentiu mesmo o cheiro, ou se apenas o querer senti-lo te deu a impressão de que ele de fato tenha existido. A morte é a despedida. E na meia-luz que é o vislumbrá-la mas ainda não tê-la, o mais triste da futura morte é perceber que não há do que se despedir, pois ele nunca esteve aqui.

Preparação para a morte

Convém continuar de pé. Convém esperar com calma. Convém, mais do que nunca, se resignar. Perante a infinda vanidade de tudo. E ler o que sobre ela milhares de homens e mulheres já escreveram - nenhum deles, porém, com qualquer conhecimento de causa. Ainda assim convém lê-los, porque isso de se debruçar sobre a natureza humana mais cedo ou mais tarde se mostra útil. Convém se apoiar naqueles que neste momento você chama de amigos - ainda que os ombros sempre se esvaiam em fumaça, por mais que você dependa deles, como já foi comprovado. Porque convém garantir o momento, aguardar de pés fincados no momento. Para que quando venha o tufão a terra seja uma realidade. Para que quando venha o tufão você não esteja já se jogando contra as paredes das casas por antecedência.

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